Sílvia Monteiro
Investigadora | Docente | Formadora
https://www.linkedin.com/in/sílviamonteiro

A investigação desenvolvida em Portugal tem mostrado que um dos principais motivos para o ingresso no Ensino Superior prende-se com a procura de melhores oportunidades de emprego. De facto, e contrariamente àquilo que tem vindo a ser veiculado por alguns órgãos de comunicação social, a formação superior continua a ser um fator protetor contra o desemprego. Os dados mais recentes da OCDE, referentes a 2016, apontaram para uma taxa média de emprego de 65% entre a população portuguesa (entre os 25 e os 64 anos) com habilitações académicas ao nível do ensino secundário, contra uma taxa média de emprego de 87% entre população com grau de mestrado ou equivalente. Não deixa, portanto, de ser realista a expectativa de que estudar mais compensa, na grande maioria dos casos, não apenas pela probabilidade acrescida de se obter um emprego, mas também por todos os outros indicadores que têm sido reportados na literatura como estando positivamente associados a níveis educacionais superiores: saúde física e mental, satisfação com a vida, diminuição de desigualdades, nomeadamente, ao nível do género, participação ativa na sociedade, etc..

A ideia de um grau superior como uma “porta para o emprego” pode, no entanto, ser também limitada e limitadora se nos fixarmos apenas nos números, ainda que estes sejam positivos. Importa assim diferenciar dois conceitos, que muitas vezes se confundem: emprego – assume uma lógica binária e restrita (ter ou não ter um emprego) – e empregabilidade – com um significado muito mais abrangente e representativo da complexidade dos recursos que o ensino superior deve potenciar. Um dos autores mais citados na área da empregabilidade (Fugate, 2004) define o conceito de empregabilidade como um constructo psicossocial que integra a vertente cognitiva (a forma como sujeito pensa), comportalmental (aquilo que o sujeito faz) e afetiva (a forma como o sujeito se sente), na interface indivíduo – trabalho (recursos individuais face às necessidades contextuais).

Isto significa que a empregabilidade depende de uma interação de múltiplos fatores, que vai além da aquisição de competências técnicas e científicas de uma determinada área de estudo. Isto significa ainda que, num determinado momento, eu posso não ter um emprego, mas manter uma atitude que fomente a minha empregabilidade. E falamos aqui de um conjunto de recursos que é tradicionalmente menos focado, mas que não é menos importante, e que implica a capacidade de pensar e refletir sobre si e sobre o meio, no sentido de potenciar competências já adquiridas: “como mostrar que sou a pessoa certa para a organização X?”; de desenvolver novas competências: “que competências preciso adquirir/desenvolver para conseguir o cargo Y na organização X?”; numa estratégia orientada pelos interesses pessoais: “o que é que eu gostaria realmente de fazer?”; mas também pelas necessidades do contexto do mercado de trabalho: “do que é que o mercado precisa na área em que pretendo operar?”. A lógica da empregabilidade, mais holística do que a lógica do emprego, permite-nos uma atitude mais proactiva, mais controlável e, por isso também, mais otimista. Por outro lado, a lógica da empregabilidade permite uma visão mais abrangente sobre aquela que é uma das missões do ensino superior e da forma como se avaliam os seus “resultados”, que pode e deve ir além das estatísticas de emprego após a conclusão de um curso superior.

Nesta linha, mais do que a “porta para o emprego” os estudantes devem olhar a sua formação superior como uma “chave para a empregabilidade”, estimulando o desenvolvimento de recursos que permitam dar um sentido às competências adquiridas, não apenas no domínio técnico e científico, mas também no domínio da gestão da carreira: planeando um futuro, efetuando um balanço de competências pessoais e profissionais e das necessidades do mercado, desenvolvendo um plano de carreira e confiando na sua capacidade para ultrapassar os obstáculos.

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