Bárbara Couto
Terapeuta | professora de Yoga e Meditação | Formadora | Co-fundadora do Projeto Educar Hoje
https://www.barbaracouto.pt

A história da minha mudança profissional não pode ser contada em linha reta, tem curvas e variantes emocionais constantes, algumas muito importantes e conscientes, outras que ficaram escondidas nas sombras da memória. Conto-a aqui em 10 sintéticos pontos.

Estudei 5 anos Direito, trabalhei 7 anos como advogada. Doze anos em que me identifiquei e construí uma imagem minha tendo fortemente por base o que estudava e, mais tarde, a minha profissão.
Deixar uma profissão na qual investimos horas de estudo, anos de dedicação, mais de uma década para sermos respeitados no local de trabalho, não é um processo fácil. É muito mais do que repensar uma carreira, é repensar quem somos, é tomar as rédeas da nossa vida e não sermos mais “vítimas” de uma decisão de carreira ou “vítimas” de convites e/ou de trajetórias traçadas por outros e aos quais não soubemos dizer não.

1. Sentir-me mal
Comecei a perceber que queria mudar de vida quando me senti mesmo muito deprimida. Hoje acredito que sentirmo-nos realmente mal, tristes, revoltados, injustiçados, com dores físicas e/ou com sintomas de ansiedade, pode ser um momento chave e altamente revelador, um grande sinal de alerta vermelho, com stop e luzinhas, de que “alguma coisa está mal”, “algo se passa” … o que pode impulsionar o início do processo de mudança.

2. Parar
Esse profundo mau estar, levou-me a parar – a pausa necessária através do Mindfulness. Aí, permiti-me conhecer pessoas novas, ter outras experiências e tomar atenção a diferentes estilos de vida, nomeadamente pessoas com horários flexíveis, com profissões pouco convencionais, ou pessoas que mudavam de emprego só por estarem entediadas.

3. Pedir ajuda
Durante essa pausa, pedi ajuda. Tive uma terapeuta (podia ter sido um coach, uma psicóloga, um orientador), uma profissional que estava alinhada e centrada e em quem confiei para me ajudar a ver com mais clareza as minhas angústias e dificuldades quando equacionava a mudança.

4. Auto-conhecimento
Percebi que muitos dos meus medos e crenças vinham de uma cultura de “emprego para a vida” e de uma forte herança genética, por ser filha de dois funcionários públicos e não ter referência ou modelos de grandes empreendedores na família (na verdade, na minha família um empreendedor é visto como uma espécie de aventureiro que entra num jogo de sorte ou azar).

5. Visualizar
Decidir e assumir para mim mesma que não queria fazer nada com o Direito, ou seja, colocar completamente de lado ideias como solicitadoria, magistratura, entre outras que, no meu caso, não eram nada mais do que formas subtis de “aproveitar” alguma coisa dos doze anos que tinha investido na minha formação em Direito.
Dar espaço para surgirem outras paixões, para abraçar menos óbvias oportunidades. Chamo a esta visualização o meu Powerpoint. Nesse powerpoint coloquei um consultório onde atendia pessoas, onde comunicava com elas e as ajudava a encontrarem os seus próprios caminhos através de estratégias emocionais e através da terapia shiatsu.

6. Fazer um plano
Perceber que essa formação em Direito (bem como qualquer outra) poderia ser útil mais à frente ou, pelo menos, seria sempre uma parte de mim que não precisava ser “deitada fora”. Na minha vida continua a ser fundamental para a planificação e sentido de responsabilidade. Na prática, usei muito a minha formação para fazer o que chamo “o meu Excel”, as minhas “contas à vida”. Perdi horas e horas a construir e a retificar o meu plano económico para, só aí, dar o “salto de fé”.

7. O “salto de fé”
Decidir, visualizar, planear e … saltar! Podemos planear mas, a determinada altura, há que colocar em prática, há que agir, nem que para isso seja necessário romper, dizer basta.
Despedir-me e cancelar a inscrição da Ordem dos Advogados foi quase tão assustador quanto contar aos meus pais, familiares e amigos que não ia mais exercer advocacia. Percebi, nessa altura, o quanto colava o Eu Sou ao Eu Faço, o quanto buscava reconhecimento e amor através da profissão (ainda caio muito nesta ratoeira!).

8. Persistir
Nem tudo são rosas. Desde que mudei de vida tive muitas alegrias mas também muitas desilusões com pessoas e situações menos felizes. Perceber que a flexibilidade e a persistência são essenciais, que a tendência é não termos aprendido a lição completamente e voltarmos a repetir os mesmos erros (às vezes disfarçados de boas causas, nobres descobertas, o que complica ainda mais!) e que, está tudo bem.

9. Ser eterna aprendiz
Meia volta, sinto-me péssima! Ter a humildade e a consciência de saber esperar, de parar quando me perco no caos dos meus pensamentos e emoções. Voltar a questionar quem sou, pedir ajuda, visualizar, redefinir estratégias, fazer novos planos e dar outros tantos saltos de fé.

10. Aceitar a ciclicidade
Entender que a minha/nossa natureza é cíclica, e que sentirei sempre altos e baixos. Aceitar que tenho mais do que um propósito de vida e que estes surgem sob a forma de coisas que me despertam interesse, que me apaixonam.
Integrar que constância não significa segurança e que a real certeza está no amor de quem me quer bem. Confiar que a família que estou a construir me amparará e confortará em qualquer queda ou desilusão laboral e que esse é o grande pilar da minha serenidade e alegria.

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