Paulo Silva
Facilitador de Desenvolvimento Humano | Coach | Trainer
Coordenador do JobLab – Programa de Aceleração para o Emprego
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A experiência de contacto com jovens em contexto de formação académica e recém diplomados leva-nos a concluir que existem diferentes fases pelas quais um jovem passa na sua relação com o emprego. Centremos a nossa atenção num jovem típico que faz um percurso de formação no ensino superior, que passa, resumidamente por 4 fases:

1. Fase “não estou nem aí” ou a fase da cigarra, na metáfora da cigarra e da formiga.

Quando iniciam formação académica de nível superior, os jovens deparam-se com um mundo novo. Na maior parte dos casos é uma fase em que se inicia uma espécie de emancipação do seu contexto familiar, decorrente da deslocação geográfica a que são obrigados, que se consubstancia, muitas vezes, num nível de liberdade de ação muito diferente daquele que tinham enquanto permaneciam no seio da família. É, também, um momento em que conhecem pessoas novas, locais diferentes, é o tempo da socialização através das praxes, das festas académicas que têm lugar quase logo no início do ano letivo. Do ponto de vista académico, há mudanças significativas, com responsabilidades acrescidas, que implicam, por exemplo, maior autonomia no processo de aprendizagem. Em resumo, nesta primeira fase, os jovens tentam responder de forma eficiente às demandas da cultura académica universitária e do percurso de aprendizagem, não assumindo, regra geral, qualquer preocupação com as questões ligadas ao mercado de trabalho. Isso é algo para pensar depois. Ainda que tal seja mais marcante na fase inicial do seu percurso no ensino superior, este registo permanece mais ou menos estável até muito próximo da conclusão do curso, caso estejamos a falar de um mestrado integrado ou, até ao final do 2º ciclo, quando estamos a falar de um curso de 1º ciclo, uma vez que, tendencialmente, se verifica que os jovens entendem o percurso de nível superior compreendendo a conclusão de, pelo menos, o mestrado (ou 2º ciclo).

2. Fase da “picada do mosquito”

Quando se aproxima a conclusão do percurso de nível superior, começa a notar-se uma ligeira preocupação dos jovens com o processo de transição. Reforça-se, aqui, o adjetivo “ligeira”, uma vez que, mesmo nessa fase, o foco dos jovens está, ainda, na sua componente académica, no sentido de alcançar os respetivos resultados (concluírem as unidades curriculares). Por isso é que lhe chamamos a fase da picada de mosquito, uma vez que esta se caracteriza por uma ligeira sensação de picadela, mas que, rapidamente, desaparece. As experiências que temos tido, mesmo ao nível do acompanhamento de trabalhos práticos realizados por alunos finalistas reforçam esta ideia de uma ténue preocupação com as questões ligadas ao mercado de trabalho, mesmo por parte de alunos que estão a concluir cursos com níveis de empregabilidade mais baixos. Utilizando, apenas, dados sobre o emprego dos diplomados da Universidade do Minho, de acordo com o relatório “O desemprego dos diplomados da Universidade do Minho: situação em junho de 2016”, destaca-se a existência de 552 diplomados em situação de desemprego à procura de primeiro emprego (nunca tinham trabalhado desde a conclusão do curso), sendo que uma parte deles está nessa situação há mais de 12 meses.

3. Fase do “paint-ball” ou “atirar para todos os lados”

Esta é a fase em que os jovens terminaram a sua formação académica e vêem-se pela primeira vez, depois de muitos anos, numa situação em que não estão a fazer nada (não estudam e não trabalham). É uma fase de transição e, por isso, repleta de emoções e sensações novas, tais como dúvidas, incertezas, ansiedade, entre outras. Na ânsia de se livrarem rapidamente dessa situação desconfortável, os jovens iniciam um processo que designamos de “envio massivo de candidaturas”, muitas vezes sem critério e, na maior parte delas, sem uma abordagem cuidada (o mesmo CV, a mesma carta de apresentação, a mesma abordagem, …). É a fase em que enviam no mesmo e-mail candidaturas para várias empresas, muitas vezes sem o cuidado de não incluir todos os e-mails para todos os destinatários, acrescentando no corpo do texto que se candidatam a essa empresa porque é a melhor do seu setor ou aquela com que mais se identificam. E, claro, com esta forma de fazer as coisas, os resultados não aparecem, ora porque não recebem qualquer feedback, ora porque são convocados para uma entrevista de emprego, mas como já nem se lembravam da candidatura que fizeram e porque a fizeram, tendem a ter prestações medíocres nesse processo. Passa-se, assim, progressivamente, para a fase seguinte.

4. Fase do “curto-circuito”

Com a ausência de respostas à sua abordagem ao mercado de trabalho, os jovens começam a ficar confusos, muitas vezes desmotivados e, frequentemente, descrentes da relevância do seu percurso académico. Vão perdendo progressivamente a confiança e a energia. É a fase em que se duvida de tudo e de todos, incluindo do próprio, das suas capacidades, das suas competências, dos seus talentos. E na ânsia de reestabelecer a energia e a confiança, os jovens assumem o exercício de atividades profissionais que pouca ou nenhuma relação têm com a sua formação académica ou com os seus interesses e perfil comportamental pessoal, contribuindo para reforçar crenças que foram interiorizando ao longo da fase 3 e na transição para a fase 4 (“não há empregos para pessoas com o meu curso”; “só consigo trabalhar se tiver uma cunha”; “não sou suficientemente bom para o mercado de trabalho”; “não tenho jeito ou capacidade para nada”, só para citar algumas)

Gostavas de saber o que fazer para não chegar a esta última fase? Fica atento aos próximos artigos em https://www.joblab-tecminho.pt/blog/

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