Paulo Silva
Facilitador de Desenvolvimento Humano | Coach | Trainer
Coordenador do JobLab – Programa de Aceleração para o Emprego
https://www.linkedin.com/in/lkdpsilva/

Tendo como referência o panorama atual sobre o emprego, a maior parte das pessoas que procura uma atividade profissional, vive na ilusão de agradar a um grande número de potenciais empregadores, na expectativa de despoletar o interesse de algum e, assim, atingir o seu objetivo de conseguir um emprego. Esta tendência é generalizada, pese embora assuma particular destaque nos jovens que estão a concluir a sua formação académica. Com este pensamento em mente, desatam a enviar currículos e candidaturas para tudo quanto é, aparentemente, oportunidades de emprego.

Trata-se de uma abordagem ao mercado de trabalho a partir dele (mercado), do que ele (aparentemente) tem para oferecer e, depois, vai-se atrás, sem se saber muito bem de quê e para quê. Procura-se um emprego a todo o custo, pese embora, não raras vezes, não se saiba exatamente que tipo de emprego. Esta abordagem coloca o candidato a emprego numa situação de fragilidade acrescida, nomeadamente se tivermos em consideração que quem procura profissionais (os empregadores) sabe muito bem o que procura. Não procura uma pessoa qualquer, mas sim uma pessoa com determinadas características e competências.

Destacam-se, seguidamente, 4 componentes chave a ter em consideração por parte de quem procura emprego, que, de certa forma, correspondem às 4 etapas gerais que, na nossa opinião, contribuem para aumentar significativamente as probabilidades de sucesso neste domínio.

1. Conhece-Te

“Quem conhece os outros é sábio; quem se conhece a si mesmo é iluminado” Lao-Tsé

A primeira etapa para um processo de aproximação ao mercado de trabalho bem sucedida está relacionada com a consciência de quem somos, ou seja, das nossas características e interesses. O autoconhecimento é, talvez, o maior desafio do ser humano, no seu caminho para o bem estar consigo e com os outros. Para que é que isto serve? Perguntam alguns. Como é que eu faço isso? Perguntam outros. Vejamos um exemplo, para melhor se compreender como funciona esta componente e a sua relevância.

Imaginemos, por instantes, uma pessoa que está a concluir a sua formação na área de medicina. A ideia que rapidamente assumimos para o seu enquadramento profissional é a atividade de médico/a. Agora, vamos imaginar que essa pessoa gosta imenso de falar com pessoas e que se sente particularmente bem em contextos (seja profissionais ou não) onde possa ouvir, compreender e ajudar pessoas através da comunicação que estabelece com elas. Quantos de nós já não desejámos que o nosso médico de família fosse assim ao invés de estabelecer connosco uma comunicação monocórdica e sem contacto visual, limitando-se a passar receitas? Pensemos, agora, na possibilidade de essa pessoa ser menos de contacto interpessoal e mais orientada para processos, qualidade, conhecimento, ou seja, que é uma pessoa que gosta, por exemplo, de investigar de criar coisas novas através da ciência.

Após esta exemplificação, certamente encaramos possibilidades de enquadramento profissional distintas consoante o tipo de pessoa. Provavelmente, e entre muitas outras possibilidades, vemos com alguma naturalidade o primeiro perfil a desempenhar a função de médico de saúde geral e familiar e o segundo perfil num laboratório de investigação.

Porém, não raras vezes, vemos exatamente o contrário, porque na base das escolhas não estão as características e interesses pessoais (perfil comportamental pessoal), mas mais as influências do ambiente (as oportunidades que surgem, os amigos, a família, outros elementos do contexto, …).

Para ajudar neste processo de autoconhecimento, nomeadamente no que se refere à identificação do nosso perfil comportamental, há várias ferramentas no mercado, das quais destacamos, pela sua simplicidade, acesso e fidedignidade, a DISC (ver mais informação aqui: http://bit.ly/2nZM3SP).

 

2. Foca-Te

“Where Attention goes Energy flows!” James Redfield

A primeira componente (Conhece-Te) é de extrema relevância para esta que aqui se propõe: a partir do momento em que nos conhecemos melhor, vamos ser mais criteriosos nas escolhas de potenciais contextos e atividades profissionais. Trata-se, então, de definir o “meu mercado de trabalho”, que é aquele que está alinhado com o meu perfil comportamental.

O “meu mercado de trabalho” é constituído por duas coisas: empresas / organizações e atividades profissionais nas quais eu me vejo a trabalhar. Ambas são relevantes e que nem sempre são assumidas como tal. Imaginemos, a título de exemplo, que após uma tomada de consciência do seu perfil comportamental (características comportamentais mais assumidas), uma pessoa com formação académica na área de psicologia identifica como potencial atividade profissional “gestor/a de recursos humanos”. As características desta atividade profissional, por si só, podem variar significativamente em função do contexto. Há, por exemplo, contextos em que esta atividade trata sobretudo de componentes de caráter administrativo-legal e há contextos em que esta atividade inclui uma forte componente de desenvolvimento. Por outro lado, os próprios contextos, na sua generalidade podem ser muito diferentes, em termos de cultura e clima organizacional. Por exemplo, há contextos profissionais que privilegiam uma cultura mais informal, em termos de relacionamento, contrapondo-se a outros que fazem questão de assumir um relacionamento formal e hierárquico. Consoante o nosso perfil, privilegiaremos um determinado contexto em detrimento de outro.

Com base na definição do “meu mercado de trabalho”, devemos definir os nossos objetivos profissionais, que incluem a atividade profissional, o contexto e o prazo para a sua concretização, devendo, naturalmente, obedecer a outras características que várias áreas, entre as quais se incluem o coaching e a programação neurolinguística, sugerem para aumentar a possibilidade de sucesso.

 

3. Prepara-Te

“O encontro da preparação com a oportunidade gera o rebento que chamamos sorte” Anthony Robbins

Chegados a este momento, uma parte significativa dos ingredientes para o sucesso na aproximação ao mercado de trabalho está feita. Já sabemos o que queremos e as razões pelas quais queremos. É chegado o momento de definirmos estratégias para lá chegar. A primeira componente dessa estratégia é o que designamos de “preparação”, que significa, sobretudo exploração exaustiva do contexto associado ao objetivo definido.  Isso significa centrar a nossa atenção numa empresa / organização e na atividade profissional que pretendemos desempenhar. Se definimos no nosso objetivo “desempenhar a atividade X na empresa Y”, vamos, agora, recolher e analisar toda a informação relacionada com essa empresa (missão, visão, valores, objetivos estratégicos, evolução histórica, âmbito de intervenção, cultura, atividades de responsabilidade social, perfil de colaboradores, pessoas-chave, …), da função / atividade profissional (requisitos gerais, evolução da função, desafios, conhecimentos e competências, posicionamento na estrutura, diferenças e semelhanças com a mesma função noutra empresa, …) e, ainda, sobre os processos de recrutamento e seleção utilizados pela empresa / organização (processos conduzidos nos últimos tempos, forma habitual de receção de candidaturas, métodos de seleção mais comuns, responsável de recrutamento e seleção, …)

4. Move-Te

“Um objetivo sem ação é um sonho; ação sem objetivo é um pesadelo” Provérbio chinês

Esta etapa / componente é aquela em que se estabelece a relação direta com o nosso objetivo, através da ação. Com base em todo o trabalho realizado anteriormente, vão ser elaborados os instrumentos para comunicar com o nosso interlocutor. Cremos que está bem compreendida a diferença entre o processo que aqui propomos e o que normalmente é seguido pela generalidade dos candidatos a emprego: iniciam (e restringem) o processo por esta fase, elaborando um CV que é enviado indiscriminadamente para uma quantidade significativa de potenciais empregadores.

O que propomos é que esse “CV” seja elaborado e “entregue” criteriosamente, atendendo às características do contexto e da atividade profissional pretendida. Colocamos propositadamente as iniciais do famoso “Curriculum Vitae” entre aspas para, por um lado, assumir que a forma de nos darmos a conhecer a um potencial empregador não tem necessariamente por passar pelo envio de um CV e, por outro, que esse suposto CV pode revestir-se de forma e conteúdo muito diversificados, atendendo às características do nosso contexto, que foram profundamente analisadas na etapa anterior (Prepara-Te). As aspas na palavra “entregue” significa, também, que o instrumento que utilizamos para nos darmos a conhecer ao empregador pode chegar até ele de muitas formas, a estudar em função de toda a informação prévia.

Quanto aos restantes instrumentos de ação associados aos processos de seleção (entrevista, testes / provas, …) importa referir que o grau de eficácia de alguém que “sabe quem é”, que “sabe o que quer” e que “sabe quem o outro é” será incomparavelmente superior ao de alguém que não sabe nada disso.

Notas finais

“Compreendemos mal o mundo e depois dizemos que ele nos dececiona.” Rabindranath Tagore

A ânsia de agradar a todos os empregadores na esperança de despoletarmos o interesse em algum, acaba por, muitas vezes, se traduzir em não agradar a ninguém e, pior do que isso, em não agradar a nós próprios. É comum ver pessoas à procura de emprego, afetadas pelo desânimo e desmotivação decorrentes da ausência de resposta às dezenas e, muitas vezes, centenas de candidaturas enviadas. Não raras vezes, este processo desencadeia processos depressivos, que em nada contribuem para o bem estar da pessoa e para o seu sucesso em qualquer das dimensões da sua vida, incluindo a componente profissional.

Estar bem consigo mesmo é o primeiro passo para estar bem com os outros. Se encetarmos um processo de aproximação ao mercado de trabalho, assumindo como prioridade agradar a nós próprios (sabermos o que queremos e porque queremos), mais facilmente estaremos em condições de agradar aos outros.

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